Festa de Caboclo – Por Severino Vicente da SIlva

É absolutamente incrível que um brinquedo de origem indígena tenha se formado no início do século XX, nos canaviais da Zona da Mata Norte de Pernambuco, região que assistiu, desde o início, à constante eliminação da primitiva população que ocupava aquelas terras. Este folguedo assume as características de uma festa indígena, uma festa dos nativos das terras brasileiras, uma festa daqueles que foram perseguidos e escolhidos para deixarem de existir.

Os índios foram os primeiros trabalhadores utilizados pelos portugueses no corte e transporte do pau-brasil, no início do processo de colonização portuguesa, que originou o Brasil. Os indígenas ambientaram os portugueses e outros europeus nas terras tropicais. Eles abriram as matas utilizando o machado metálico, uma das muitas tecnologias trazidas pelos europeus.

Quando os portugueses passaram a ocupar as terras para o plantio da cana-de-açúcar, o índio tornou-se um estorvo e começou o processo de sua eliminação. Foram muitos os mortos e muitos os que deixaram o litoral para adentrar-se no interior.

Os seus líderes, suas leis e sua religião nunca foram reconhecidos ou tolerados pelos europeus. Os habitantes da terra tiveram que aceitar a cultura trazida pelos portugueses. Esconderam o que pensavam. Esconderam seus deuses para sobreviver.

Sabemos que não era permitido aos silvícolas manterem suas tradições. As suas danças, os seus cantos, os seus costumes, a sua maneira de viver eram vistas como “coisas do diabo”. Foram obrigados a vestir a roupa que os brancos utilizavam, além de estabelecer novas formas de relacionamento familiar. Assim, as suas tradições não puderam ser mimetizadas com as facilidades que favoreceram as tradições africanas, ainda que estas também tivessem sido reprimidas. Muitas vezes, as leis dos colonizadores permitiam que os negros escravizados, trazidos da África, pudessem tocar seus tambores e cantar os seus cantos. Mas não eram permitidos os costumes e as danças dos índios.

Na linguagem do índio, não apareciam os sons do R, do L e do F, por isso se costumava dizer que eles tinham Rei, Lei nem Fé. Suas relações de poder, suas normas, seus costumes, tradições e deuses, tudo foi negado aos nativos, menos a morte física e cultural.

Durante o período de colonização, ocorreu um processo de destruição física e cultural dos primeiros habitantes do Brasil. Nos primeiros anos, foram muitos os mortos. Morreram de bala, de doenças, nas guerras, nos aldeamentos ou nas missões; morreram ao perderem o controle de suas terras; morreram ao verem sucumbirem suas famílias; morreram por não poderem louvar os seus deuses. Aos poucos, morriam, enfim, ao verem morrer sua cultura.

Durante a colonização, surgiu a palavra caboclo. Era uma forma de desclassificar os filhos dos indígenas. Não era índio, não era branco; não era livre, não era escravo, não era brasileiro, não era português. Em 1775, El-Rei Dom José de Portugal teve que proibir o uso da palavra por ser considerada uma injúria contra os filhos de índias com brancos. Até pouco tempo, ninguém se dizia índio, embora afirmasse ter algum parente antigo avôs, bisavôs de origem índia.

No meio dos matos, contudo, reinavam certas histórias: curupiras caiporas, bois, comadres fulozinhas, iaras, e tantos outros seres imortais, protetores do mundo iluminado por Guaracy e Jacy. Nas matas, ocorreriam encontros de tradições proibidas, quando negros fugidos dos engenhos eram protegidos por tribos perdidas; nos Quilombos, índios viviam com negros sedentos de liberdade; e, nas senzalas, crentes de deuses perseguidos protegiam-se e bebiam do caldo da Jurema, enquanto o Saci-Pererê continuava a fumar ao lado de uma índia velha.

Na segunda metade do século XIX, foi grande a disputa pela posse de terra dos índios, especialmente no Nordeste. Aqueles que sobreviveram e foram viver na região Nordeste deixaram de falar suas línguas, para se preservarem, física e culturalmente. Começaram a se dizerem e se chamarem de caboclos. Estes caboclos já não falavam sua língua em público, e vinham se mesclando com outros grupos, também desclassificados socialmente, como os negros e os brancos pobres. Ocorreu o fenômeno da “caboclização” das populações indígenas. No início do século, parecia não mais existirem índios no Nordeste.

No final do século XIX, o Brasil mudava. Africanos ainda escravizados, e seus descendentes, alcançavam a liberdade com o fim da escravidão. Em Pernambuco, em 1888, havia 41.122 escravos, todos com mais de 16 anos. Os negros, após libertos, passaram a ser, juntamente com índios, caboclos e brancos pobres, protagonistas da história e da cultura.

Ainda naquele final de século, estava ocorrendo uma crise na principal atividade econômica de Pernambuco, a produção de cana-de-açúcar. Descendentes de escravos, mamelucos e cafuzos iam ocupando os engenhos de Fogo Morto, agora fornecedores de cana para o engenho central e para as usinas. Tornaram-se foreiros, meeiros, moradores. Lá estava o Caboclo, vivo na alma, no sofrimento, no doce e no amargo dos canaviais.

Além do açúcar, os caboclos produziam sua dança cantando seu passado. As confusas lembranças, lentamente, tomavam forma e movimentos, sons e plasticidade. Os índios renasciam no meio dos canaviais que os haviam engolido.

No início do século XX, um brinquedo foi nascendo. Os caboclos saíam solitários, com uma roupa simples, um chapéu afunilado, os rostos enegrecidos de carvão, como guerreiros que vão à guerra. Uma lança na mão, avistada de longe, e o som dos chocalhos, anunciavam a passagem ou a chegada do guerreiro que vinha do canavial.

A festa do caboclo de lança foi se formando aos poucos, como lembra Ernesto, que hoje é dono do Cambindinha Brasileira:

Um negócio de índio, a gente pegava um pedaço de pau pra fazer a

Guiada, pegava a fazer batida num tambô, ajuntava gente, tava

Feita uma tribo. É… foi assim…

 

Foi se fazendo assim: um pouco de cada brinquedo que o povo conhecia um cadinho de Reisado, um tanto de Cavalo Marinho, outro tanto de Bumba-meu-Boi e outro de Caboclinho. Uma festa de celebração de um passado guerreiro.

No começo, era um brinquedo só de homens. Brincadeira de cambindas, homens que se vestiam de mulher. Dançavam de cócoras. Aos poucos é que se foi formando o Maracatu. Uma reunião de caboclos que não mais viviam nas tribos, mas que formavam uma tribo a cada ano. Os encontros promoviam normas de convivência ao mesmo tempo em que serviam para demonstrar a destreza nos movimentos, com a lança e os pés. Os sons dos chocalhos já não eram suficientes e foi-se formando, então, uma pequena orquestra com instrumentos simples de percussão. Só depois veio o instrumento de sopro, ou, como se diz, o músico.

E havia mais de um maracatu em cada engenho, depois os dono de engenho foi butando os morador pra fora e diminuiu o número, como relata o Caboclo Ernesto. A crise do açúcar foi espalhando os guerreiros em direção aos aglomerados urbanos. As usinas tornaram muitos engenhos em Fogo Morto, mas não mataram os guerreiros, que renasciam e se fortaleciam nas cidades. No início da década de 1950, ocorreu um maior êxodo em direção à capital do Estado, o que levou o Recife a tornar-se um sonho para todos os maracatus de origem rural.

O tempo e as autoridades passaram a chamá-los de Maracatu Rural, de Baque Solto ou de Orquestra. Era para diferenciar do maracatu das áreas urbanas, do maracatu que se formara com os negros de ganho do Recife na segunda metade do século XIX, já conhecido como Maracatu de Baque Virado.

O Maracatu de Baque Virado nasceu no pátio das igrejas, filho da tolerância forçada, da acomodação social nos pátios das igrejas e nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de São Benedito. Este maracatu é a festa de uma nação para seu rei, um rei que ajuda a “manter” a ordem e subordinação entre os pretos que lhe forem sujeitos”.

Já o Maracatu de Baque Solto nasceu nas encruzilhadas dos canaviais, de um povo que não tem rei, mas que teima em manter-se vivo. Surgiu surpreendendo o mundo. É a festa dos caboclos de lança.

Texto retirado do Livro Festa de Caboclo.

Severino Vicente da Silva

Editora Reviva

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